SERES HUMANOS, POLÍTICA E O 8° PASSAGEIRO

Um  documentário da BBC, “Planeta Terra” que apresentava o fungo/parasita Cordyceps, que se aloja no cérebro da formiga para transformá-la em zumbi e assim garantir sua sobrevivência, me levou a realizar algumas conexões entre a política e as ideologias  que colonizam nossos pensamentos e nos transformam em “zumbis”.

A idéia de zumbis, alienígenas que se alimentam da vida não é recente, podemos encontrar este conceito em vídeo-games como “The Last of Us”, “Residente Evil”, na ficção científica literária, nos quadrinhos e no cinema em filmes como “Matrix”, etc.

O sucesso de toda essa produção cultural talvez se deva também ao fato de que o mêdo ao desconhecido, mêdo daquilo que nos escapa ao controle, sempre nos fascinou.

Neste sentido, um dos filmes mais perturbadores que me lembro foi  o  filme de Ridley Scott, “Alien – O 8° Passageiro”, onde (em um futuro próximo) uma nave mineradora comandada por terrestres, entra em contato com uma forma de vida alienígena em hibernação e que utiliza o ser humano como hospedeiro. Mesmo sabendo do risco, um andróide/tripulante recebe ordens dos diretores da companhia em preservar a vida alienígena, mesmo que isto custe a vida de toda a tripulação. Vale a pena rever o filme!

Alien_2

A imagem do cartaz de divulgação do filme por si só já é intrigante, pois apresenta uma espécie de óvulo fecundado esperando pelo seu nascimento, o que nos leva a associar com nossas próprias contigências, o mêdo em uma gestante de que seu filho possa nascer com problemas de formação, nosso terror diante de bactérias hospitalares, etc.

Outro conceito de “colonização” é apresentado em um artigo do jornalista Eugênio Bucci:  “Aquilo de que o humano é Instrumento descartável”.

Em 1995, Richard Dawkins, publicou um livro “River Out of Edén”. “Neste livro, o autor diz que o ser humano  e outros organismos vivos, nada mais são  que um engenho dos genes para se transportarem (os genes)  em direção ao futuro. Isto é, dentro de um pensamento darwinista, não serão as espécies que triunfarão, mas os genes”. (Isto te lembra alguma coisa, tipo mapeamento genético?).

“Se Darwin utilizou sua teoria como uma metáfora do liberalismo, considerando a vitória do indivíduo sobre seu destino.  Dawkins parece simular um capitalismo generalizado, totalizante, que reduz o sujeito, à instrumento de um projeto cuja origem, cujo fim e cujo sentido nos escapa das mãos” (Bucci, 2009).

CONTIGÊNCIA E O NASCIMENTO DA POLÍTICA

Mas vamos devagar. Gostaria de explorar melhor a idéia de contigência, ou seja aquilo em que qualquer um pode estar sujeito, mas não pode controlar, um exemplo seria saber que um dia vamos morrer e isto pode produzir uma série de mêdos.

Pois bem, diante da contigência, podemos apresentar duas paixões: o mêdo e a esperança. O mêdo diante de um futuro incerto e a esperança de que coisas boas podem nos acontecer. O mêdo gera a tristeza, a esperança, a alegria.

Vamos pensar em nossos antepassados do paleolítico, vivendo em um mundo repleto de contigências, de fôrças que escapavam ao controle. Provavelmente viviam em um clima de bastante mêdo. E, foi desse mêdo que nascem as formas primitivas da religião, como uma forma de explicar as forças sobrenaturais. Surge então a figura do feiticeiro, do xamã que podia dialogar com essas fôrças, gerando assim uma das primeiras formas de poder religioso.

Com o despontar das primeiras civilizações, surgem as guerras pela posse da terra, e para não ficarmos expostos à guerra de todos contra todos, buscamos na figura do rei, uma forma de proteção contra as contigências de uma morte trágica. O rei portanto passa a deter o poder militar, seja na Grécia antes do advento da política, seja na Idade Média.

O poder econômico (em algumas sociedades patriarcais) estava no âmbito da vida privada e era exercido pelo chefe de família, que tinha poder de vida ou morte sobre os seus súditos (esposa, filhos, escravos), o velho Testamento está repleto de exemplos deste tipo de poder.

Com o tempo, o rei passou a centralizar os poderes religioso, militar e econômico e isto começou a gerar uma série de problemas. Buscando superar a centralização e suas contradições, surge na Grécia,  a política (polis = cidade), em um espaço (praça) onde todos cidadãos (demos = povo) discutiam as questões públicas.

Porém, além de romper com o poder centralizador do rei, a política também visava uma vida harmônica entre os moradores da cidade. Vou mais além, além disso ela oferecia uma certa segurança diante das contigências apresentadas pela vida nas cidades.

O que isto quer dizer, embora a cidade foi criada para a convivência humana, nós somos movidos por paixões, o desejo de poder, de dominar o outro, de prejudicar o próximo, etc., neste sentido, a política cria leis e procura administrar o bem público de maneira a nos proteger de nós mesmos.

Assim sendo,  pensar na política, é pensar de forma coletiva, superar nossas paixões egocêntricas, para se discutir a cidade como um todo.

CONTIGÊNCIA E O PODER ECONÔMICO

Com o surgimento do capitalismo na era Moderna, a discussão sobre o bem comum, partindo de princípios do liberalismo, passa a dar lugar aos interesses da classe dominante (como sempre aconteceu na história humana) neste caso a burguesia (mercantil, industrial), que passa a apoiar a livre iniciativa, a competição (sem considerar as desigualdades sociais e, então, o poder econômico que estava restrito ao âmbito do privado, passa a fazer parte da discussão pública.

A partir de então, a política passa a ser um espaço de embate de fôrças opositoras (a Revolução Francesa pode ser um exemplo emblemático), onde embora  grandes injustiças ainda eram cometidas, o debate político era o espaço vital para as grandes decisões.

Curitiba

No final do século XX, com a globalização e desregulamentação do mercado (neo-liberalismo), a política começa a apresentar sinais de debilitação, o poder econômico passa a ter os mesmos poderes que o rei, antes da criação da política.

Não seria preciso, mas volto a dizer que quem governa o mundo hoje não são os políticos, mas o poder econômico, cujo principal objetivo é o domínio e lucro a qualquer preço.

Mas como estes poderes atuam? Interagindo diretamente sobre nossos mêdos e esperanças, interferindo nas decisões políticas dos países, justificando as crises, se apropriando da produção científica e ofecerendo novidades tecnológicas, oferecendo poder e felicidadade através da publicidade e do consumo e criando simulacros da realidade.

A velocidade em que vivemos as mutações (produzidas principalmente pelas novas tecnologias que alteram nossa percepção de tempo e espaço e também atuam como um canto da sereia) nos faz cair em uma espécie de sono e que nos faz esquecer  das ações políticas que possam questionar nosso lugar no futuro, esquecer da empatia necessária para perceber a dor do outro, esquecer que toda produção científica, (inclusive o mapeamento genético) requer nossa participação nas decisões éticas, esquecer que toda a nossa fúria pelo consumo (roupas, veículos, tecnologias) vai ter um custo na vida do planeta, esquecer que toda violência urbana é fruto da injustiça e de um sistema econômico neo-liberal perverso, que pode desembocar em um estado neo-totalitário global de segurança máxima, etc.

Este sono faz com que banalizemos a vida, a experiência, a tradição, a história e vemos com normalidade multidões em um shopping consumindo e sendo consumidos, vizinhos que não se cumprimentam, comidas industrializadas, adolescentes que passam dezoito horas jogando sem parar vídeo-games (claro, têm uma indústria por trás disso), jovens e adultos que se encontram em um barzinho Wi Fi, e só se comunicam através de celulares e notebooks?

No entanto, as estratégias micro políticas atuais têm apontado a transformação do espaço privado em espaço público e “coletivo”, onde o individualismo nos leva a buscar defender interesses de um pequeno grupo, da família, de nossa comunidade religiosa, de nossas necessidades pessoais e isto interessa bastante aos nossos representantes, já que eles não precisam apresentar um projeto político consistente.

Nas eleições, basta defenderem a luta contra a violência, mais segurança pública, combate ao narcotráfico, redução das tarifas de transporte e já garantem sua permanência como representante político (o que não deixa de ser uma “teta” de rendimentos, que ninguém quer largar).

Porém, o que mais me perturba nesta história toda, é que, enquanto humanos, chegamos a um patamar de desenvolvimento técnico/científico, que nos produz a sensação de que temos super poderes, superamos a barreira do tempo e do espaço (Internet), temos smarphones, games, veículos (4×4) automatizados, imagens full hd, cinema 3D, apartamentos inteligentes, shoppings…vivemos em tempos de uma mutação técnica sem precedentes que nos leva a confundir realidade com ficção científica, isto é, passamos a viver em uma espécie de cenário controlado pela tecnologia e por que não, pelas máquinas.

Novas tecnologias

Neste ambiente, a linguagem (base do nosso pensamento) vêm sendo substituída por logaritmos, imagens sintéticas, impulsos e reflexos… que destroem o poder da palavra, do discurso enquanto caminho para a reflexão e a ação sobre nossos destinos e uma vez extinta a linguagem (o discurso), rapidamente seremos colonizados pela lógica da técnica (em mãos de poderes empresariais) em uma linguagem incompreensível.

Não estou aqui, questionando os avanços científicos e tecnológicos que podem nos proporcionar qualidade de vida e confôrto, mas nossa alienação diante de tantas novidades.

Embora o documentário em questão possa remeter diretamente a um cenário de ficção científica, gostaria de reforçar a questão das políticas públicas ou o seu esquecimento, onde a economia deveria estar a serviço da política e não de teorias econômicas pautando a política, isto é, fundamentos que estão a serviço de interesses corporativos das maiores empresas do mundo.

Neste sentido, a economia (grandes corporações) seria como uma espécie de “8° Passageiro”, um “alien” que coloniza o nosso pensamento político e por ende, a sociedade civil. Não obstante a nossa arrogância de poder, de liberdade, etc…  E se… alguns poderes se apropriarem de pesquisas científicas para elaborarem uma guerra bacteriológica?

Ou seja, sem perceber estamos caminhando sem refletir nossas ações dentro do verdadeiro conceito de “política” e vamos mergulhando no cenário de ficção proposta pelo filme “Alien – o 8° Passageiro” ou mesmo “Matrix”, onde não seremos mais que mero hospedeiros de poderes econômicos que vampirizam nossas vidas.

Pois bem, olhem para sua vida na cidade, aparentemente disfrutamos de uma certa liberdade, mas dá  prá perceber um certo mal-estar  mesmo com toda ilusão de felicidade, seguimos oscilando entre o mêdo e a esperança, cuja alegria, não é a superação de nossas paixões e um mundo de fato democrático, mas possuir o último modêlo de veículo ou o novo smartphone que postamos no Facebook.

Mas, se a política (Estado) deveria nos oferecer segurança e liberdade para a construção de um mundo melhor, quem roubou nossa coragem? Como diria Legião Urbana.

O DISCURSO DA SERVIDÃO VOLUNTÁRIA

Gostaria aqui de retomar o pensamento de La Boétie, que discute a seguinte questão: Por que obedecemos de forma dócil ao tirano? Por que servimos de forma voluntária aos poderes que nos oprimem? Será por que o tirano possui extra-poderes? Será por que ele possui garras e dentes que nos imprime o terror?

Não, dirá La Boétie, abaixamos a cabeça e obedecemos sem questionar, por que nós (milhões de súditos por todo o planeta) temos mêdo da liberdade de poder decidir nosso próprio destino.

Além do que, anos de experiência e exercício no poder, as empresas que dominam a economia, diluíram a imagem do tirano, mascaram a exploração através de uma imagem de investimento social, transformam seres comuns em pseudo-celebridades, o velho pão e circo dos romanos com uma nova roupagem de espetáculo.

No entanto, a história está repleta de boas intenções e tentações, como nos lembra Paulo Freire em sua “Pedagogia do Oprimido”, nós enquanto classe de oprimidos, lutamos contra o poder opressor, e uma vez superada a opressão e nivelada a justiça, cometemos os mesmos erros que combatíamos.

Será que, enquanto espécie biológica e espiritual que sobreviveu até aqui, nós, humanos, estamos com os dias contados ou não? Será que somos hospedeiros de um projeto hiper-capitalista que se antecipa aos nossos mais profundos desejos de mudança e nos oferece em troca um mundo de ilusões.

Sou otimista, um bom uso das redes sociais seria um caminho (vejamos o exemplo do Egito), mas não dá prá deixar de pensar ou então, bem vindos ao mundo pós-biológico e neo-totalitário. Um abraço e até o próximo post.

BIBLIOGRAFIA:

ARENDT, Hannah – “A condição Humana”. Editora Forense, Rio de Janeiro, 1993.

BOÉTIE, Étienne – “Discurso da Servidão Voluntária”. Editora Brasiliense, São Paulo, 1999.

BUCCI, Eugênio – “Aquilo de que o humano é instrumento descartável” in NOVAES, Adauto, “A Condição Humana”.  Editora Agir, São Paulo, 2009.

CHAUÍ, Marilena – “Convite à Filosofia”. Editora Atica, São Paulo, 1995.

DARWIN, Charles – “A origem das espécies”. Editora Folha de São Paulo, São Paulo, 2010.

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Sobre urupespc

Sou professor de artes e design gráfico, gosto de tudo relacionado ao universo das artes.
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