BUENOS AIRES, VISTE??

Sempre tive uma certa antipatia por Buenos Aires e os amigos de Mendonza, de Rosário, de Córdoba sempre confirmavam a arrogância dos portenhos, mas depois de assistir ao filme “Medianeiras” simpatizei tanto com a história que resolvi romper o gêlo e conhecer a cidade de “Nossa Senhora do Bom Ar” ou simplesmente Buenos Aires.

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A primeira impressão que tive da cidade, me lembrou o filme “Crespúsculo dos Deuses”, (1950), direção de Billy Wilder, e que conta a história de uma atriz (Glória Swanson) que um dia bela em seu batom vermelho, famosa, acostumada com o glamour, com a passagem do tempo envelhece e  inconformada em ter perdido as luzes dos refletores, não consegue encarar a realidade, passando a viver de um passado de glória.

Uma rápida anedota ajuda a ilustrar esta idéia, caminhava pelas calçadas da avenida 9 de Julho buscando determinado cinema e me encontro com um senhor de oitenta anos que se mostrou bastante simpático ao descobrir que eu era brasileiro. Em seus tempos de glória (ou de dólar) já tinha morado no Brasil (Rio, Recife, Camboriú, etc) e depois de ouvir durante alguns minutos suas histórias, pergunto sobre os povos que ajudaram a construir a cidade – ele me cita os espanhóis, os italianos, os judeus – então pergunto sobre as etnias indígenas, os mestiços e ele diz: Ah! Estes não contam!!!

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Mas, eles estão pela cidade, netos dos êxodos rurais, imigrantes colombianos, peruanos, paraguaios, massacrados pela industrialização e pela globalização. O incrível foi é que ouvi justamente desta classe que hoje luta para sobreviver dos “Maxiquioscos” (lojinhas de uma porta que vendem de tudo) uma espécie de ressentimento constante contra os brasileiros que aproveitam a relação real x peso para fazer turismo pela cidade, como se a culpa fosse dos turistas que se encantam pela cidade.

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Agora, basta caminhar pelos bairros de Ricoleta, Palermo, Nuñez, Porto Madero para se perceber que existe uma classe que se foi afetada pela crise, caminha sem pisar no chão, frequentam restaurantes luxuosos, ainda viajam pela Europa, andam de BMW e frequentam os teatros na Avenida Correntes em suas roupas de gala. Para esta classe o turismo faz parte da civilidade de uma cidade cosmopolita.

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Na realidade, Buenos Aires se tornou, se é que nunca deixou de ser, uma cidade bastante cara para as camadas sociais mais baixas, no verão falta água, falta luz, é um caos para quem vive do pequeno comércio.

Outra anedota para ilustrar: Primeiro noite no hotel, ligo a televisão e noticiam uma senhora sexagenária que indignada pela falta de energia elétrica, saiu no meio da rua e tirou a blusa, deixando as tetas de fora, gritando: ”Cansei de pedir, o negócio agora é escandalizar para chamar a atenção!” e chamou, cinco minutos depois da cena sair ao vivo na televisão, seu problema foi solucionado.

Porém esta foi uma primeira impressão. Aterrizando, me hospedei em um hotel quase esquina com a Avenida Rivaldávia, no bairro Once (quase coração da cidade). Hotel Rodney, um lugar confortável e um pessoal super querido (Silvania, Luciano, Ariel, Nadia, Lucas, Norma), recomendo de coração.

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Então no dia seguinte comecei a procurar pelo imaginário que move a cidade, não no luxo, na ostentação, na arrogância de uma classe conservadora, mas nos cafés, nos bodegones (restaurantes onde come ou comia a classe trabalhadora), nas praças, nos metrôs.

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Buenos Aires, janeiro de 2014, verão de 40° com sensação térmica de 45°, umidade relativa do ar 60%, calor implacável; é uma cidade plana (sem grandes ladeiras) e se pode caminhar quilômetros a pé pela cidade. As ruas são movimentadas como toda grande metrópole, mas não se respira o clima de violência que encontramos nas capitais brasileiras, um prazer fazer os roteiros a pé ou de bicicleta, de dia ou de madrugada, tirando o calor né, imagina eu acostumado com o clima de Curitiba,  transpirava mais que um cachorro São Bernardo.

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Bem, outra mais: Sabadão, meio-dia, caminhando entre as terraças dos cafés da Avenida Correntes e de repente um rápido tumulto: Um grupo de turistas brasileiras se queixando junto a um policial de que foram vítimas de um assalto, levaram suas bolsas que estavam nas cadeiras. Não preciso nem falar nada, encantadas com tantas lojas na rua Florida, retornando das compras, resolveram parar para comer algo, foram ao banheiro e deixaram suas bolsas nas cadeiras dispostas na calçada. É prá acabar né! Buenos Aires é tranquila, mas não dá prá marcar touca.

Por certo, a cidade é uma tentação com todo tipo de loja, no  bairro Palermo tem lojas super elegantes, Ricoletas transbordam também as boutiques, próximo ao hotel, quantidade de lojas de judeus que vendem pedras preciosas, bijouterias, etc., a rua Florida é uma peatonal com lojas e mais lojas para se comprar roupas;  nesta última, gente bonita de todo canto do planeta e brasileiros a dar com pau. Preciso dizer a palavra mais repetida nesta rua: “Câmbio dólares, câmbio reales!”. Ejem.

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Uma das coisas que me chamou a atenção foram os olhos do povo portenho, olhos um pouco caídos, levemente rasgados,  como os de um cooker espanhol e uma variedade de castanhos, azuis, verdes, encantadores.

De fato, o tango está no espírito dos portenhos, música que assim como o blues americano, nasce nos prostíbulos portuários da cidade para ganhar o status erudito que se respira na cultura da cidade. É bastante comum a gente encontrar um portenho reclamando da economia, dos políticos, dos brasileiros, mas basta alguns acordes de tango para se sentir o clima dramático, boêmio, de amores e traições que se respira no tango.

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Outra: Desta vez foi na Avenida Santa Fé. Um grupo imenso de pessoas congestionavam a calçada, me aproximo e havia um silêncio sagrado, olho para a vitrine e tinha uma televisão ligada em uma loja onde se cantava uma versão ópera de “Dont´cry for me Argentina”. Na feira do bairro San Telmo encontrei o mesmo espírito em uma galera que disfrutava com um grupo musical que fazia variações do tango. Tenho que tirar o chapéu, valorizam sua identidade, sua cultura de maneira quase sagrada, daí um orgulho que pode parecer arrogância para os mais desprevenidos.

A arquitetura é um capítulo a parte: Edifícios neo-clássicos, neo-góticos…  se respira cultura por toda a cidade, livrarias, cafés lotados, restaurantes lotados, teatros, cinemas, Buenos Aires respira boêmia, vida noturna. À noite os portenhos estão mais sorridentes, relaxados, outra onda.

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Surpresa também foi não encontrar pessoas falando pelo celular nas ruas, bares ou metrôs, a conversa, o olhar para o seu interlocutor, ainda funciona. Outra constatação: Não encontrei shoppings pela cidade, existem sim as galerias comerciais que imprimem à cidade um espírito de modernidade e que nos remete à descrição de Walter Benjamin sobre as mudanças na vida urbana parisiense no início do século XX.

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A dieta gastrônomica dos portenhos é baseada em batatas, pizzas, pão, lingüiça e carne vermelha, senti o intestino pesado nos primeiros dias, mas logo descobri um restaurante vegetariano super bom, cujo dono é chinês, foi minha salvação, batia cartão todo dia, Coca-cola por lá é raridade, quem domina é a Pepsi.

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Posso contar outra: 23:00 hs da noite de segunda, caminhando pela cidade esqueci de fazer um café, perto do hotel encontro um pequeno restaurante que cuida um peruano, acabei comendo umas empanadas deliciosas (tipo massa fina de torta, assados com carne/frango/queijo/presunto) com cerveja Brahma e arrebatei com uns tamales (pamonha doce). Só que quando o dono descobriu que eu era brasileiro, ficou duas horas me contando sobre a gastronomia espanhola, o sujeito era super simpático, um grande abraço para ele.

Os parques em Palermo são imperdíveis, quilômetros de verde, bem cuidados, tranquilos, ótimos para se fazer um pic-nic na grama, onde os jovens se reúnem para namorar, tocar violão em um clima bem poético.

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Os boliches por lá são os lugares para dançar (disco, salsa, tango, etc), só que a noite nos boliches começam muito tarde, 2:00 da manhã; em minha primeira saída para dançar, dormi demais, perdi a hora e cheguei na balada as 4:30 da manhã, deu prá agitar até as 6:00. Mas logo me adaptei. 🙂

Depois de uma semana de cidade grande, me cansei um pouco e então aproveitando a dica de um amigo argentino, o Daniel, peguei um ônibus no Retiro e desci em San Antônio de Aleco (100km de Buenos Aires), uma cidadezinha de três mil habitantes, cujo turismo é de olfebrería equestre (prata) e artesanato, lugar super calmo, uma volta aos bons tempos, piazada nadando no rio, jovens descansando debaixo das árvores, famílias felizes fazendo o pic-nic. Dizem que lá as pessoas dormem de portas abertas, acho que é pura verdade. Cidadezinha encantadora.

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Enfim, como primeira experiência para conhecer a cidade e desfazer alguns preconceitos, valeu a pena conhecer Buenos Aires, escrevo com saudades de um monte de coisas. Mas como a idéia é compartilhar e fazer um convite, na próxima postagens deixo algumas dicas bem interessantes para quem tiver afim de se aventurar por Buenos Aires. Viste? Um grande abraço.

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Sobre urupespc

Sou professor de artes e design gráfico, gosto de tudo relacionado ao universo das artes.
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Uma resposta para BUENOS AIRES, VISTE??

  1. Pitoco pitocao disse:

    ¡Ostras Paulinho! Me ha encantado tu relato de las experiencias en Buenos Aires. Has tocado muchas cosas, elegantemente, y dejas pruebas de haber observado mucho. ¡Qué bien!

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