OVOS DE PÁSCOA, RITUAL SEM SENTIDO

Fica difícil falar do profundo sentido da Páscoa cristã diante de tantos chocolates da Nestlé, Garoto, Kopenhagen, muito menos convencer seu filho que por de trás de tanto chocolate estão grandes empresas cujo único objetivo é o comércio e que, visando o lucro investem pesado no marketing e na publicidade.

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Se  os queridos amigos me permitem,  vou ser o chato da vez e retomar algumas idéias que podem (em tempos líquidos) derreterem pelo caminho.

A primeira idéia têm tudo a ver com a religião. Pois bem, sem entrar na discussão do papel que ela têm na vida de cada pessoa (meditação, busca de prosperidade financeira, solução de problemas, um sentido para a vida, etc), ou mesmo como cada um a pratica (em casa, nos templos, no dia a dia),nem  tampouco vou discutir as atrocidades cometidas em nome de Deus no decorrer da história humana. A questão é que, a religião tem a ver com o nosso desejo de sobrevivência e no sentido que buscamos para a existência.

Para ilustrar, vamos pegar o exemplo da maternidade, já é senso comum: uma criança que nasce é um milagre. A mãe emocionada, os amigos encantados, e diante daquela criatura fofinha e inofensiva, os pais dariam a própria vida para garantir sua sobrevivência (embora sempre vá existir pais desnaturados).

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Pois bem, na luta humana para garantir essa sobrevivência  surge a religião (religar) que através de mitos (narrativas) que explicam as origem humana e ritos (rituais para preservar a memória), buscou os laços de fraternidade dos grupos humanos onde ela surgiu, seja na Ásia, África, Europa, Oceânia ou Américas.

Os mitos sobreviveram através da tradição oral (pais transmitiam aos filhos os conhecimentos herdados dos avós) onde narravam as aventuras de seu povo, sua etnia, as origens do mundo, etc., buscando assim um sentido para a preservação da espécie e fortalecer os laços de confiança entre iguais. Já os ritos (sacrifícios de animais) buscavam através da morte, expulsar os sofrimentos vividos no passado pelo grupo religioso.

Na história do cristianismo não é diferente. A princípio, na tradição judaica, diante da falta de comida, o povo hebreu migrou para o Egito, lá foram escravizados e o coração do faraó egípcio só foi tocado quando morreu o seu filho primogênito. Para se protegerem do anjo da morte, toda família judaica sacrificou um cordeiro e pintou a porta de sua casa com o sangue do animal.

Passados muitos anos, já em Israel, Jesus era um dos muitos profetas que vagava com seus apóstolos pela árida geografia do lugar onde nasceu. Neste tempo, uma das características do povo judeu era a hospitalidade, assim organizavam toda a cidade para receber os visitantes que iriam ao templo realizar os rituais (Páscoa) que lembravam o sofrimento do povo judeu no Egito.

Foi em uma dessas peregrinações com seus discípulos para celebrarem a Páscoa que Jesus, que já havia sido denunciado pelas autoridades sacerdotais para os romanos, foi preso e crucificado. Portanto, temos a última ceia com os apóstolos, a solidão no Getsemani, na sexta feira a crucificação e no domingo, sua ressurreição.

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Não vem ao caso discutir aqui, a veracidade da história judaica no Egito, nem mesmo a questão da existência ou não de Jesus.

O que interessa aqui,  é iluminar o aspecto simbólico desta passagem. Uma mudança significativa, de um mundo regido por leis severas (segurança) , para um concepção do perdão, da misericórdia e do amor ao próximo, independente de suas origens (liberdade).

Mas o que tudo isso tem a ver com ovos de chocolate?

Realmente nada que ver, a indústria de chocolates, buscando aumentar suas vendas, conseguiu misturar rituais nórdicos e pagões de fertilidade (a lebre) com ovos  e produzirem rituais vazios de sentido através de chocolates consumidos na Páscoa.

Então como ficamos diante de um tempo marcado pelo consumo, pela violência nas cidades (onde o único refúgio é um templo de consumo, os shoppings centers), pelo olhar de desconfiança entre todos que não são amigos ou da família, pelo mêdo ao pobre, maltrapilho ou extrangeiro, pela busca da felicidade que foi trocada por celulares, carros, etc., pela depressão que resulta na falta de sentido para a existência?

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Apresentar um sujeito pregado em uma cruz com uma coroa de espinhos na cabeça, de fato produz horror, um ritual desagradável, mas que nos faz lembrar do cordeiro vivo (ver tradição judaica) sacrificado para nos lembrar do valor da amizade desinteressada, do amor ao próximo, do perdão e da confiança que perdemos nas outras pessoas, da hospitalidade.

 Vamos considerar também o fato de que, o tema morte foi banido das discussões familiares,  apresentamos aos nossos filhos um mundo sem dor, sem sofrimento, sem sacrifício, sem frustrações.

Diante do horror, a ciência moderna fez uma assepsia nos rituais, tudo pode ser explicado cientificamente, já estamos finalizando o mapeamento genético, estamos acoplando a máquina na nossa existência pós biológica, podemos garantir um mundo tranquilo, sem violência, nas realidades virtuais dos nossos filhos (ver o fenômeno do Second Life na Internet) e caminhamos para uma sociedade totalitária no estilo “Admirável Mundo Novo” descrita por Aldous Huxley.

Não quero ser apocalíptico, mas é evidente a fome de poder e lucro que os grandes capitais mundiais se apropriam do conhecimento científico (medicamentos, tecnologias) para transformá-los em lucro, portanto sem ingenuidade ao reconhecer os avanços positivos da ciência.

Domingo de Páscoa, pode comer seu chocolate o que não te impede de pensar no verdadeiro sentido de sua existência (quem somos, onde estamos, para onde vamos?). Um grande abraço e Feliz Páscoa.

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Sobre urupespc

Sou professor de artes e design gráfico, gosto de tudo relacionado ao universo das artes.
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